Guerra comercial de Trump leva China a buscar soja no Brasil
- Reinaldo Stachiw
- 12 de dez. de 2024
- 2 min de leitura
(Bloomberg) -- A primeira guerra comercial de Donald Trump prejudicou os produtores de soja americanos em US$ 11 bilhões. Uma sequência desta guerra está prestes a ser ainda pior.
O grão foi o garoto-propaganda da primeira disputa tarifária de Trump com a China, com os embarques americanos para o maior comprador mundial da commodity caindo 79% nos primeiros dois anos de sua administração. Naquela época, a nação asiática ainda precisava de parte dos suprimentos americanos de soja. Agora, pode simplesmente viver das compras do rival Brasil.

O cenário é semelhante para outras commodities, com a China diversificando seus fornecedores e abrindo mercado para o milho e o trigo da Argentina, sorgo do Brasil e algodão da Austrália. Os silos da China estão transbordando — ao mesmo tempo que uma economia em desaceleração está afetando a demanda doméstica.
“Da primeira vez a China não estava preparada. Desta vez, eles estão preparados — eles têm estoques recordes de soja, internamente,” disse Steve Nicholson, estrategista global do setor de grãos e oleaginosas no Rabobank. “A dinâmica mudou um pouco.”
O risco de uma escalada da guerra comercial surge enquanto os agricultores americanos lutam para recuperar sua posição como o principal exportador de produtos básicos, de milho a trigo, após os sucessos do Brasil em conquistar participação de mercado. Os produtores já estão recebendo menos por suas colheitas, com os preços do milho e da soja atingindo os níveis mais baixos desde 2020 no início deste ano.
Trump deve repetir o manual de seu primeiro mandato, com tarifas possivelmente seguidas por medidas retaliatórias da China, que pesariam sobre os preços dos grãos. Uma resolução pode eventualmente surgir, mas a China terá um “apetite menor” para retornar aos níveis de importação anteriores, escreveram em nota analistas do Citigroup Global Markets, na segunda-feira.
A maioria dos produtos agrícolas “está na linha de frente para movimentos comerciais retaliatórios”, porque mudar de fornecedores incorre em custos comparativamente menores, de acordo com analistas da Bloomberg Intelligence.
A primeira guerra comercial ajudou a colocar em movimento a atual situação de oferta, já que o afastamento da China dos EUA estimulou o Brasil a plantar mais soja e limpar terras para expandir a área cultivada. O Brasil pode colher uma safra de soja no início do próximo ano mais de 30% maior que os níveis vistos antes da guerra comercial EUA-China.
Entretanto, estoques globais abundantes não estão impedindo os agricultores americanos de produzir mais — eles acabaram de colher uma safra recorde de soja em meio à crescente demanda doméstica. Os produtores provavelmente continuarão plantando mesmo se a guerra comercial de Trump afetar a demanda — afinal, o ex-presidente destinou US$ 28 bilhões aos agricultores para amortecer os impactos durante a última disputa comercial.
“Não esperamos uma retração na área plantada nos EUA,” disse Chuck Magro, CEO da fabricante de sementes Corteva, que, no entanto, pretende expandir seu programa de soja no Brasil. “Supondo que as tarifas sejam semelhantes, em que a China sente que precisa comprar de outros mercados, a produção dos EUA ainda encontrará um lar”, afirmou ele.









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